Há pelas ruas folguedos,
Danças e bailaricos,
Santo António é de Lisboa!
Pelos cantos mas sem medos
Trocam-se fartos beijinhos!
Há festa, há namoricos,
A banda o hino entoa
E as varinas bailando,
Na cabeça seus lencinhos,
Vão d’ Alfama à Madragoa
As suas marchas cantando!
A festa começa à tardinha,
Nas janelas manjericos
E colchas a adejar,
As meninas ensaiando!
Noite dentro a sardinha,
Pão e broa com bom vinho,
Ao redor os dançaricos!
Esbeltas donzelas a bailar
E os rapazes suspirando
“Ponha lá mais um tintinho”!
Começa o dia a clarear
Numa aurora de promessas!
É chegado o Santo António
Aquele tão ansiado dia!
Há donzelas a rezar
“Venha um noivo mesmo às pressas
Qu’o qu’é preciso é casar,
Não venha de lá o demónio
E fique aqui eu p'ra tia”!
Ver a festa a desfilar
No seu trono a presidir
Minha Rainha é ausente!
Está triste, pesarosa,
Por de casa não sair!
Rainha que vai orar
A Santo António, o patrono,
Aquele desejado presente!
Mesmo assim tão chorosa,
Tem um brilho cintilante,
Suas lágrimas são flores
Em sua face formosa,
Seu sorriso radiante
No sofá com seus amores
Majestosa em seu trono!
És um Anjo, doce Cinda,
Um Anjo feito por Deus
Que Ele mandou lá dos Céus
Naquela imagem bem linda
Que voa de Alma em Alma
Irradiando Luz e Calor,
Por vezes triste, peregrinando,
Em reminiscências de Dor,
Mas sempre com sua calma
E, mesmo gemendo e chorando,
Inunda os outros de Amor
Vejo-o eu, amigos, vêem-no vós
Um Anjo digno dos Céus
E sempre orando por nós
Envolto em seus lindos véus
Asas brancas de Bondade
As asas que Deus lhe deu,
Desafiando a Eternidade,
Chegam da Terra ao Céu.
E à noite ao deitar
Depois de tanta labuta
Em rodopio constante
Num imenso peregrinar,
Guerreira, prepara a luta
Em sua diária oração.
Reclina-se ainda ofegante
Mas em paz e sorrindo
Seu bondoso coração
Em riso de Amor florindo!
Dorme nosso Anjo de Amor
Que a noite é tão comprida
Queremos que sonhes a Vida
Suavizando a imensa Dor
Dor que é nossa também
Pedimos a Nosso Senhor
E à Sua Santa Mãe
O afago e o calor
Que sabes dar como ninguém!
Esse teu rosto tão lindo
Esse rosto sem igual
Doce p’ra estar sorrindo
Que é luz da madrugada
Suave lâmpada sagrada
Em meio de temporal.
Pode o tempo estar ventoso
Mas esse rosto suave
Mais doce que doce Lua
É divino, majestoso
Tem a graça duma ave
Sem beleza igual à sua
Teu rosto é a luz Santa
Que nos dá paz e sossego
Ao contemplá-lo por bem.
Luz que prende e que encanta
Num delicioso enlevo
Tal o filho a sua Mãe
Tua força é Amor e é Ternura
Um bálsamo que nos consentes
São tuas asas providentes
Que nos abrigam e dão ventura
Como um Anjo tutelar.
Basta a tua aparição
Esse teu mui doce olhar
Que nos faz ajoelhar
Em eterna adoração.
Teu rosto é nosso Forte
De abrigo na tormenta
Teu sorriso a fonte pura,
Sem ti nossa alma tremia.
Deusa da nossa Sorte
Aquela que afugenta
Toda a nossa desventura
Em noite cerrada e fria
És nosso berço de Amor
De ti aquela beleza
Que nos ensina na Dor
E nos transmite a lição.
Em ti a nossa grandeza
Que nos afaga o coração.
Como Mãe que o filho enlevas,
És a Luz das nossas trevas.
Teu marido e filhos
Os olhos do meu amor são rubis loiros
Que prenderam os meus, a minha mocidade
Neles ficaram um dia meus tesoiros
Meu coração, minha alma e liberdade.
Enchem o meu peito de encanto mago
Ficam na sombra as coisas dolorosas
Todos os espinhos se tornam belas rosas
E nos meus olhos as lágrimas apago.
Anseio ouvir tua melodia de amor
Em silêncio tuas palavras amorosas
No meu peito não cabe mais a dor
Uma febre ansiosa me invade
Murmuro palavras silenciosas
Anátemas de esconjuro da Saudade.
Lembras-te, meu amor,
Daquele dia primaveril
Em que nos vimos os dois?
Era um domingo d’ Abril
Dia em que vi uma flor
P’ra colher tempos depois.
Lembras-te, meu amor,
Das férias que gozámos
Poucos meses passados?
Em dias d’imenso calor
Prece ao Céu elevámos,
Os dois, entrelaçados.
Lembras-te, meu amor,
Das viagens que fizemos
Naquele automóvel velhinho?
Em minha mão a tua mão,
No ar teu fresco odor,
Nosso sentir expusemos
De amor e de carinho,
Fluindo do coração.
Lembras-te, meu amor,
Daquele quinze d’ Agosto
Toda de branco, imaculada?
Teu belo e corado rosto,
Em piedosa oração,
Pedindo a Nosso Senhor
A Sua Bênção Sagrada
Benzendo nossa união!
Pequena,
franzina,
morena,
a sofrer
desde menina,
quando a aliança
entre a fantasia
e a esperança
era ainda rainha.
Dia a dia,
dorida,
seu ser
se doou
a gerar vida!
E sempre sorria,
contente!
Nem o tormento,
a dor
da partida
de um rebento,
lhe suavizou
seu presente
de amor
“Mãe!
Naquele dia,
teu rosto ameno
como um passarinho,
sereno,
deitado,
dormia
em seu ninho
de Morte!
E sorria,
belo, delicado,
forte!
E não compreendia
a dor
da separação,
ainda resplandecia
numa oração
de bondade
e amor!”
“Mãe!
E a saudade?”
E tu, ternamente,
sorrindo:
“Meu menino,
é amor
também
florindo
no teu coração
de gente,
pequenino!”
“A tua bondade
é infinda!
Tive tanta sorte
por seres a minha Mãe!
És tão linda!
Sempre tão forte
no amor!
Lembras-te daquele dia
em que, alvoroçado,
te dizia,
afogueado
de emoção?”
«Mãe, vou p’ra escola!»
“Com que alegria
me preparaste
e na minha mão
colocaste
a sacola,
sorrindo!”
“Vai, pequenino,
vai indo,
vai abraçar
teu sonho de menino,
teu desejo de saber!
Vai rir e saltar,
e aprender!”
Mãe,
e a redacção
que me ensinavas,
enquanto cosias
e remendavas?
E a canção
que cantavas
contente
e com doçura,
p’ra eu dormir?
E nada pedias,
só davas
ternura,
eternamente
a sorrir!”
“Ó Mãe!
O teu carinho
não tem fim!
Teu ninho
só de amor
construído,
com muita dor
mas nunca vencido,
foi um jardim
florido!
Por isso, também
não o vencerá
a Morte,
não!
Que o amor
é mais forte
que a dor
e o meu coração
nem um dia
t’ esquecerá!
Mãe,
tu também
és MARIA!”
(Francisco)
Ó montes que tão alto elevais
Os cumes das montanhas pedregosas
Que nem as ventanias abrigais
E encheis de gelo nossas almas dolorosas!
Se em ti eu confiava como abrigo
Das marés da vida tão ventosas
Tu me recusaste dar consolo amigo
Expondo minhas dores a invernias rigorosas!
Teu fresco ar em redemoinhos anelado
Mitigam da minh’ alma a amargura
Deixai-mos ao menos respirar deleitado!
E quando chegar o dia do Final Juízo
Minha alma ao Céu s’eleve, fresca e pura
Para gozar da paz do eterno Paraíso!